1987: O Ano do Esporro Metálico?

24 maio, 2011.
 Por: Lucas Deathim


Em 1987, a cena metálica ainda sofria com o primeiro ano de ausência do irreverente baixista Cliff Burton do Metallica. Enquanto uma multidão de bangers lamentavam a perda do hippie banger, a costa oeste norte americana vivia o alvoroço do Hard Rock, e álbuns como “Appetite For Destruction” do Guns N´ Roses e “Girls, Girls, Girls” do Mötley Crue, vendiam horrores, e seus vídeos eram veiculados sucessivamente na programação da MTV. Com o arregaço do ano de 1986, muitos metalheads ainda estavam atordoados com seções agressivas como “Reign In Blood” (Slayer), “Pleasure To Kill” (Kreator), “Darkness Descends” (Dark Angel) e outros deleites característicos. O ano seguinte deu seguimento à fórmula agressiva, mas de uma maneira inovadora. Repleto de lançamentos indiscutíveis, 1987 foi o período de estréias de várias bandas que proporcionaram ao público lançamentos de suma importância dentro das vertentes mais pesadas do metal como Thrash, Death, Black, Doom e Grindcore.

Com todo o auge do Hard Rock, muitas bandas undergrounds se sentiam insatisfeitas com toda aquela postura narcisista de ‘glamour e status’ da turma farofeira. Bandas como o Napalm Death e o seu debut “Scum”, apresentaram ao mundo um “novo modelo de insatisfação que atendia pelo nome de Grindcore. Na Itália o primogênito "Into The Macabre”, do Necrodeath, era o misto perfeito de Possessed, Bathory, Slayer, Hellhammer e todo o clima satânico. “Persecution Mania” era o divisor de águas entre a temática lírica do Sodom, que largava a temática negra e inseria o lirismo ‘At War’. Nas terras geladas suecas o Candlemass, transformava melancolia em melodia, com o poeta lírico Messiah Marcolin estreando com o grupo no espetacular “Nightfall” e o Bathory de Quorthon divulgava a blasfêmia “Under The Sigh Of The Black Mark”. Voltando na Alemanha o Kreator se encabeçava de vez no Thrash Metal, vide “Terrible Certainty”, e a química ‘açoite e cerveja’ era comprovada de vez em “Chemical Invasion” do Tankard, além da sagrada bebida alcoólica, a ideologia da pirataria era inserida graças ao Running Wild e seu poderoso “Under Jolly Roger”. O Violent Force também entrava nesse vasto clube de assalto metálico com o único e maléfico “Malevolent Assault Of Tomorrow”

Na terra do queijo, o Celtic Frost mostrava à cena a dopação gótica e vanguardista “Into The Pandemonium”. A gravação cristalina de “Terror Squad” do Artillery soava perfeita para época, e ainda na terra do Mercyful Fate, o ex-vocalista da banda, King Diamond amaldiçoava com o conto macabro “Abigail". As coisas iam desgraçando na Europa, e na América do Norte não era diferente. “Scream Bloody Gore” e “Season Of The Dead” do Death e Necrophagia respectivamente, encabeçavam o estilo Death Gore de ser e a desgraceira “Shark Attack” do Wehrmacht, uma fusão crossover cheia de guitarras serra elétricas, serviu de base para muitas bandas de Black da década de noventa. Na Bay Area, melodia e agressividade marcavam o primeiro legado do Testament, o Possessed se rendia ao Thrash.  E os prazeres canibais eram estampados no ácido “Pleasures Of The Flesh” do Exodus. “Breaking The Silence” do Heathen era o misto de “Bonded By Blood” com “Walls Of Jericho”.

Enquanto isso, em Nova York, o Anthrax combinava Hardcore com vocais ‘rappeados’ no seu estilo peculiar de sonorização. Já o sarcasmo e o humor negro do Carnivore era novamente pregado na paulada neurótica “Retaliation”. Na escola mais Speed, o Overkill mirava na face de todos o clássico “Taking Over" e o Nuclear Assault com o EP “The Plague” alertava às massas a propagação da radiação. Às margens do Rio Michigan em Chicago o Zoetrope com sua temática criminosa “A Life Of Crime” detonava. Mais embaixo em New Jersey o trio ítalo-descendente Whiplash, soltava o segundo petardo “Ticket To Mayhem”. No sul, o D.R.I com o dilema dividir e conquistar conquistava a gregos e troianos com Crossover, o cruzamento e a unificação entre Punks e Bangers. No Canadá, álbuns como “None Shall Defy” do Infernal Majesty mostrava uma junção fantástica entre Thrash e Black. Já os seus conterrâneos, o Aggression, detonava um Crossover totalmente diferente do americano, soando mais sujo e menos brincalhão com a porradaria “The Full Treatment”.

Ainda na terra do Rush e da vaca louca o Sacrifice atirava em todos com o segundo ato de extermínio: “Forward To Termination”. O Slaughter aniquilava multidões com o fenomenal esporro “Strappado”, enquanto o Voivod viajava na quarta dimensão ‘pinkfloydiana’, “Killing Technology”. No Brasil a consolidação da cena era eminente, devido à proliferação pungente das bandas mineiras, paulistas e cariocas. Minas Gerais já era um pólo de Heavy Metal, e a gravadora Cogumelo documentou todo aquele período de ouro. O Sarcófago com seu “I.N.R.I” mostrava ser um dos precursores da trincheira, com seu  Death/Black cheio de blast beats estupendos. Na turma do outro lado, Andreas Kisser se integrava no Sepultura e acumulava mais musicalidade e técnica, resultando no full lenght “Schizophrenia”. Além do Sarcófago o restante da trupe que fez parte da coletânea, Warfare Noise I, também rumavam seu lugar ao mosh. “Abominable Anno Domini” era a primeira abominável apresentação de ódio do Chakal. “Immortal Force” do Mutilator era o açoite de sotaque carregado. O Holocausto não ficou de fora e invadiu o meio com o seu macabro “Campo de Extermínio”. Na terra da garoa, o Korzus era a profanação do mal e o álbum “Sonho Maníaco”, acabou fazendo com que um tema como o suicídio se transformasse em uma tragédia,  João  Gordo e sua galera deixava o Ratos de Porão cada dia mais sujo e agressivo.

No ABC paulista, o Anthares estreava com a bolacha “No Limite da Força” um dos melhores álbuns de metal cantado em português. Calvagando na velocidade de uma bomba, o auto intitulado do Attomica parecia estar em uma rotação acelerada, tamanha a rapidez do som. Descendo a baixada paulista, o Vulcano apresentava “Anthropophagy” e suas guitarras estridentes. Diante de tantos petardos matadores, 1987 não foi só apenas o ano da consolidação do metal nacional, mas também um dos momentos mais diversificados entre as massas sonoras metálicas. Quem presenciou isso aí deve ter ficado atordoado perante tantos full lenghts desgraçadamente antológicos.







1 comentários:

Marcos Garcia disse...

Bem, considero que 1987 foi um ano prolífico para o Metal como um todo. Talvez, tenha sido o ano mais importante para o Metal mundial (no Brasil, 86 seria o mais corrento em vista da invasão massiva das gravadoras independentes, enfim, ajudando os bangers daqui a terem discos antes inimagináveis ou que custavam os olhos da cara). Mas sem radicalismos, houveram outros antes e outros depois que ajudaram muito as definições à serem expandidas.

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